Luz, câmera e ação não se aplicam aqui, vamos combinar. É notícia velha para essa turma carioquíssima. A Banda Cena1 já costurou há tempos esses três elementos básicos de uma consistente construção cinematográfica nos palcos da vida. Com um roteiro eficiente, seus integrantes vêm escrevendo um capítulo atrás do outro até chegar aqui. O filme, rodado quadro a quadro com absoluta precisão nesses caminhos e descaminhos do rock, começa a ser exibido agora neste disco de estreia. O cenário está pronto para o Cena1.
Daniel Lomba (voz e violão), Thiago Frodo e Leo Jack (guitarras), Rafael Magro (baixo) e Bernardo Martins (bateria) botaram o pop no foco. Subiram na grua e amplificaram um punhado de influências em seu projetor: anos 80, violões baladeiros, rock rasgado, solos de guitarra, riffs pontudos e punk rock importado do Overdrive, banda que é parte da trajetória que desembocou aqui. Com ela, o Cena1 arregimentou atores pesos-pesados para os alto-falantes - Bad Religion, Offspring, Green Day invariavelmente correram pela fiarada do chão e comeram os amplificadores (ouça “Bangalô” e ache isso tudo nela). Está tudo aqui, simplificado em canções neste disco que, não fosse a persistência digna de um cineasta alucinado por ver seu filme na tela, não existiria.
Masterizado no Sterlling Sound, em Nova York, e produzido no inflamado estúdio do Yahoo, na Barra da Tijuca, no Rio, o disco carrega essas boas mãos de qualidade, que fazem os alto-falantes soarem com fidelidade sonora acima do esperado.
Em 10 canções, atropeladas por uma sinceridade incomum, despeitadas de modismos, tendências ou do som do momento, a Banda Cena 1 desliga a tomada do som do amanhã, geralmente adornado impunemente por badulaques eletrônicos, preferindo protagonizar uma sequência plugada no passado. Nos sons com os quais seus integrantes cresceram ouvindo, nota a nota.
Letras romanceadas proliferam no CD, como “A rosa”, esta abalroada por uma pegada de ska-reggae, baixo galopante e solo de guitarra que, diferentemente do que diria Paula Toller, vão conquistar. Texturas e cores de violões suaves, de intro entrecortada por guitarra dedilhada, como os empregados em “Ampulheta”, parecem customizadas para o que vem a seguir, um crescendo de bases pesadas e viajando para frente e para trás da canção.
Sobrando nos arranjos, talhados para filmes de densidade Bourne, os quatro coringas vão afastando dos lados o bom mocismo do Batman, apresentando suas “maldades”. A escolha da Banda Cena 1 é por um formato pintado de cores sóbrias. O punk gringo acaba molhado de tratativas brasileiras, acusticamente poderoso, caso de “Sexta-feira”.
A nova formação encontra eco na história recente. Os caras do Cena 1 mudaram de formação, mexeram no som, quase penduraram suas guitarras diante de tantas dificuldades, puseram fé na volta e, agora, rodando o filme de trás para a frente, vê-se, para eles e para nós, que valeu a pena.